sábado, 21 de janeiro de 2012

“Alto falante, gente elegante... estranho, hein!”

Já faz tempo que a noite do período de férias do brasileiro é ocupada por programas pitorescos, pra não dizer verdadeiros “colírios nos olhos dos outros”. A receita é a seguinte: vamos saborear alguns milhões, para isso vamos precisar de uma enorme panela de pressão, dessas feitas sob medida, com especiarias dos tipos mais variados... Tem baiano, modelo, fazendeiro e até negro, que alias, ficou bem claro que “não entrou por cotas”, acrescenta um pouco de farra e uma pitada de intriga para dá gosto.

“O que é que é isso?”... sinceramente, não entendo porque insistimos em fazer dessa receita o prato do dia, para ser mais especifica, o prato da noite. É incrível como nossos ouvidos e o nosso olhar tem se acostumado a coisas do tipo. Lamentos a parte... vamos ao que interessa, alguém me diz, por favor, o que estão fazendo com as cotas, é muito fácil trazê-la descontextualizada e como desculpa fazer um discurso muito lindo de igualdade e que somos todos irmãos. Não, o mais incrível é quando eu, enquanto negra ou negro, nem sei do que se trata as políticas de ações afirmativas e “engrosso ainda mais o angu”, validando afirmações do tipo: “são os próprios negros que se discriminam”, “o racismo tá na cabeça dos negros”, “ eles não se esforçam , por isso não conseguem as coisas”.

É muito fácil dizer quando não se vive na pele, a cor negra, e quando não se experimenta todo legado de marginalização que submeteu a negritude à condição de escravo. O sangue vermelho que corre na veia de negros e não negros não foi e nem está sendo levada em consideração em lugar nenhum, agora acredito que até o dito cujo toma consciência do que pronunciou. Discriminação racial existe sim. Não adianta “tapar o sol com peneira”, só não ver quem não quer. Alguém me dê uma explicação mais convincente para “Sinto muito, mas o senhor não se adequou ao perfil da empresa”, que perfil é esse? “Peraê... tá pensando o quê?” Reconheço que estive um tanto desligada a esses questionamentos, agradeço muito a minha amiga-irmã que abriu meus olhos acerca do assunto, que diz respeito a nós negras-negros e incomoda mesmo, mas não devemos nos cansar nunca de bater na mesma tecla e expor o que insistem em silenciar.

A favor das cotas sim, em tudo que tivermos direito. Estivemos marginalizados durante tanto tempo, vamos esperar até quando? Que nada de esmola, nos garantimos sim... Mas não vem pra cá dizer que basta se esforçar e pronto como num passe de mágica tá tudo resolvido. Enquanto política urgente de reparação, sim as cotas; enquanto oportunidade de mostrar quem somos e pra onde vamos, sim as cotas; se para sermos iguais é preciso nos diferenciarmos, sou negra sim e porque não, sim as cotas?

Concluindo...

Depois de tanto disse me disse, só mais uma observação: “Alto falante, gente elegante... estranho, hein!”


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